Sobre o sistema de saúde e sotaques

Há pouco tempo atrás tive minha experiência no sistema de saúde de Edmonton. Assim como muitos, eu também me perguntava como afinal era o sistema canadense. Já tinha ouvido de tudo: que era pago; que era gratuito; que tinha uma pequena taxa toda vez que era usado; que a fila de espera demorava uma eternidade; que o atendimento não era grandes coisas; que o sistema era excelente; que eles não faziam medicina preventiva… enfim, um monte de informação desencontrada.

Vamos por partes: é gratuito sim. Totalmente. Claro que o sistema público não cobre 100% dos procedimentos médicos (dentistas e oftalmos, por exemplo, não estão inclusos até onde eu sei), mas consultas, exames e a grande maioria dos procedimentos estão sim inclusos. E você não paga nada. Ou melhor, paga os impostos como todo mundo, e isso já basta. Não é pra isso afinal que servem os impostos?

Em Alberta, você tem direito ao Alberta Health Care desde o primeiro dia. Basta apenas ter o Social Insurance Number (SIN), que você faz em dez minutos. E não precisa ser Residente Permanente ou cidadão: mesmo com visto de estudo ou trabalho você tem direito. A única exigência é que você planeje morar na província por pelo menos um ano (OBS: isso é pra Alberta, galera! Não sei se nas outras províncias é a mesma coisa! Ouvi dizer, por exemplo, que em BC tem uma carência de 3 meses até você poder tirar o Health Care).

Você adere ao Health Care em poucos minutos, preenchendo uma ficha. Em poucos dias, recebe a carteirinha pelo correio. E pronto, já está apto a usar qualquer hospital e clínica pública da cidade. Sem pagar um tostão.

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Modelo do cartãozinho do Alberta Health Care

 

Quando precisei marcar uma consulta, tive que pesquisar um médico no site www.edmontonareadocs.ca, um site que reúne informações dos médicos credenciados do sistema público. Um médico de família, na verdade, algo bem comum por aqui. Como tem clínica espalhada na cidade toda, é fácil achar alguma perto da sua casa.

Fui lá na clínica escolhida, preenchi uma ficha e aguardei eles ligarem de volta. Na semana seguinte, já estava com consulta marcada. A médica – super atenciosa, por sinal – me passou alguns exames. Menos de um mês, e todos os exames já tinham sido feitos.

A consulta e os exames foram gratuitos e agendados com uma rapidez que me surpreendeu (fiz um exame de sangue numa clínica perto do centro onde pude escolher data e hora para a coleta- e consegui o horário que queria). Todas as instalações (clinica e laboratórios) eram ótimas, equipamentos novos e pouquíssima espera no atendimento. Absolutamente todas as pessoas que me atenderam foram simpáticas e atenciosas. Não tive o menor problema em ser atendida: só o que pediam era a carteirinha do Health Care, alguma identificação (pode ser até o passaporte) e o pedido de exame do médico. Não amarguei horas na fila, não fui mal atendida, não tive problemas com marcação, não fui discriminada por não ser cidadã (ainda não tenho o PR e ninguém que me atendia sequer questionava isso). Minha experiência com o serviço de saúde de Edmonton foi excelente.

Agora por que coloquei “sotaques” no título? Bem, um tempo atrás, vi uma discussão num grupo do Facebook sobre o problema de ter um sotaque, sobre discriminação, sobre os esforços para se falar como um nativo.

Minha gente: apenas, parem. Aceitem seu sotaque. Todo estrangeiro tem sotaque ao falar outra língua, e sabe qual o problema disso? NENHUM.

Estou falando isso pois, dos três profissionais de saúde com quem lidei (uma médica e duas enfermeiras), duas eram estrangeiras. A médica era árabe, usava lenço na cabeça, tinha nome e sobrenome árabe e falava com sotaque árabe. A enfermeira era croata, morava há 15 anos no Canadá e ainda falava com sotaque. Ambas me entenderam e se fizeram entender. Ambas trabalham na área da saúde atendendo um monte de pessoas o dia inteiro, provavelmente de um monte de lugar do mundo, com todos os sotaques do mundo.

E sinceramente, achei isso o máximo. Pessoas diferentes, de origens diferentes, histórias de vida diferentes, mas lá, com seus nomes estrangeiros, seus sotaques estrangeiros, trabalhando como todo mundo, tratando todo mundo igual e sendo tratadas igual aos colegas canadenses.

Por isso, não fiquem com a neura do sotaque: acreditem, ele é charmoso! Aqui no Canadá você vai escutar uma cacetada de sotaque diferente, isso é normal. E já digo logo: o sotaque brasileiro é inconfundível. A única coisa que importa é conseguir se comunicar. É normal tropeçar em algumas palavras. É normal não conseguir falar alguns sons da língua inglesa, mas e daí? Duvido que os gringos consigam falar o ÃO igual a gente. Já ouviu gringo tentar falar São Paulo? Pois é. E eles se preocupam com isso? Pois é.

E se alguém ainda ficar encucado com isso, é só se lembrar:

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