Imigrar é mudar (mais do que você pensa)

Parece clichê, mas mudar de país é realmente algo que mexe com a cabeça da gente. Quem fica no Brasil romantiza (e muito!) a vida de imigrante e acha que tudo são flores do lado de cá. Que a gente é mais feliz, que a nossa conta bancária é mais gorda, que nossas férias são eternas, enfim, que a grama é mais verde do outro lado da fronteira. E nas redes sociais, talvez pareça ser assim mesmo. Mas quem fica no Brasil muitas vezes não sabe dos bastidores e de como as coisas se transformam uma vez que a gente decide abraçar outro país como lar.

E a menos que o imigrante seja RYCOH, ele vai passar perrengue, ele vai trabalhar em survival job, ele vai engasgar no inglês, vai sentir medo, vergonha, tristeza e saudade. Claro, vai também ficar feliz, rir com a descoberta de coisas bobas e comemorar as pequenas conquistas da nova vida. E é aí que a cabeça dá um nó. Pois o que importava antes, de repente não importa mais tanto assim. E o que antes era bobo, agora tem um valor danado!

Aliás, se tem uma coisa que muda logo de cara é isso: o valor que a gente dá pras coisas. Já vi muito imigrante comemorar ter conseguido emprego em fast-food como se fosse uma das maiores conquistas da vida. E quer maior conquista do que sair da zona de conforto e ser empregado no exterior quando às vezes nem sequer domina a língua nativa direito? Sei que tem gente que acha isso bobo e até vergonhoso, e admito: eu achava também. Até passar um ano trabalhando no Starbucks e mudar totalmente minha percepção sobre esse tipo de vida e sobre as pessoas que trabalham nesses setores.

E sabe quando você mora no Brasil, mas odeia morar no Brasil? Sabe quando acha que tuuuuuudo é melhor na gringa? Pois é. Aí você vai morar no exterior e de repente, bate uma saudade absurda do Brasil! Saudade daquela comida típica, dos carrinhos de pipoca na rua, da água de coco natural, do pastel de feira. E você fica mais patriota do que nunca. Pelo menos foi o que aconteceu comigo: de tanto ouvir inglês o tempo inteiro, eu passei a valorizar a música brasileira. E me pego ouvindo MPB, rock nacional, bossa nova e forró no Spotify enquanto trabalho. E me pego celebrando ao ver o Guaraná Antártica sendo vendido por aqui. E me pego indo com a camisa da Seleção para o trabalho em dias de jogo! E me pego, vejam vocês, tendo um puta orgulho de ser brasileira e falar português, apesar de todos os pesares que a gente está careca de saber!

Pois não é só a nossa vida que muda. Muda também a maneira como a gente olha o mundo. Muda a maneira como a gente olha as pessoas. Pois se no Brasil você tinha o rei na barriga, aqui você é só um imigrante. Só um latino. Você, que marcava “Branco” quando preenchia o censo do IBGE de repente se dá conta que aqui você é na verdade um non-white. Você, que tinha Mestrado ou MBA, agora frita hambúrguer ou serve café. Você, que achava que tinha inglês fluente, agora tropeça nas palavras que nem uma criança. Aqui, você abaixa sua bola na marra.

E parece que, em um ano, se passaram dez, de tanta coisa que passou pela sua cabeça e de tanto que você mudou. É como se a Terra tivesse dado mil voltas ao redor do sol nesse meio tempo. É como se o mundo não fosse mais o mesmo, quando na verdade, quem não é é você.

Eu queria terminar com uma citação que eu vi no Instagram de uma amiga, e que inspirou esse post todo. Mas não achei o real autor: uns dizem que foi o C.S. Lewis em As Crônicas de Nárnia (mas já averiguei e não foi) e outros dizem que é de Calvin e Haroldo. Seja quem for o autor, vale a pena deixar aqui a citação.

 

 

“It’s funny how day by day, nothing changes. But when you look back everything is different.”

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