Imigrando aos (ou se virando nos) 30

O tempo às vezes é uma merda mesmo. Ele passa rápido quando não tem que passar, mas se arrasta nas horas mais inapropriadas. Quem pensa em imigrar se vê às voltas com as voltas do tempo: a longa espera pelo visto, a demora que é juntar o dinheiro necessário, os prazos que parecem sem fim, o planejamento que requer mais meses (ou anos) do que a gente gostaria. E quando a gente vê, o tempo passou e você já entrou na casa dos trinta e fica a pergunta: estou velho pra imigrar?

Claro que existem aqueles que dizem que a vida começa aos 30. Mas quando a gente faz as contas e percebe que imigrar é literalmente um recomeço do zero, bate a dúvida. Fazer college aos 30? Trabalhar de atendente do McDonalds aos 30? E quem já tem filho? E quem ainda não domina o idioma? É, eu sei. Imigrar aos 30 parece ser bem mais difícil do que imigrar aos 20.

A má notícia é que não, a vida não começa aos 30. A boa notícia é que ela começa quando tiver que começar — e isso pode ser aos 20, aos 30, aos 40. No fundo, a maioria das incertezas é coisa da nossa cabeça e literalmente ninguém liga.

A verdade é que sua idade é bem menos irrelevante do que seu aprendizado. E quando a gente para de se preocupar com essas nóias de que a vida aos 30 já era pra estar bem mais estruturada do que ela está, a gente aproveita e aprende muito mais. Afinal, imigrar é sair da zona de conforto, e sair da zona de conforto é enxergar coisas que a gente não enxergava antes.

Sim, eu sei.  Aos 30 nossa cabeça está em outro lugar. Mais maduros, mais preocupados com a saúde, mais focados em fazer as coisas darem certo do que curtir as coisas no estilo V1D4 L0CA. É muita coisa para se preocupar ao mesmo tempo. Arrumar emprego é prioridade, batalhar pra conquistar seu lugar no mercado de trabalho é primordial, e a gente sabe que esses survival jobs são temporários. Totalmente de acordo.

Mas se tem uma coisa que eu aprendi nesses 30+ anos de vida foi que tudo tem seu tempo (olha ele aí de novo). Tem gente que imigra novinho e alcança tudo cedo na vida. Mas nem todo mundo é igual, e se você já for uma balzaquiana quando tiver condições (e vontade) de imigrar, que assim seja. Pode ter certeza de que, planejando direitinho, ninguém vai precisar viver de miojo. É, talvez seu primeiro emprego aqui seja no Tim Hortons, talvez você tenha um horário super irregular, talvez seu primeiro apartamento não seja grandes coisas. Mas e daí? Tire proveito essa liberdade que é recomeçar do zero e aproveite essas coisas que talvez no Brasil você nunca tivesse oportunidade de aproveitar.

Quando você vê, o tempo passou, a vida estabilizou e quem sabe, você até começa a sentir um tiquinho de saudade do frio da barriga dos seus primeiros meses como imigrante. Eu sinceramente adoro minha vida e onde eu consegui chegar, mas juro que vez ou outra bate aquela saudade marota de quando eu ia trabalhar no Stabucks de bicicleta, folgava nas quartas-feira e não tinha mais obrigação nenhuma depois que fazia meu clock out. É uma fase da vida, uma fase de altos e baixos, mas uma fase gostosa. Uma fase necessária, inclusive para nós, trintões. Ouso dizer que principalmente para nós. Como eu falei, se não fosse essa ideia maluca de imigrar, eu nunca teria experimentado esse estilo de vida.

E quer saber? Ainda bem que experimentei!

Realmente, imigrar aos 30 não é fácil. Mas quem falou que precisa ser difícil?